quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Descubra a sorte do dia no café da manhã

Circunstância: Imagine você, uma mulher de uns 25 anos, formada em design e viciada em andar de skate. Na noite anterior, você se puxou e ficou subindo e descendo lombas durante duas horas sem parar, o que resultou numa dor infernal na perna esquerda. E você odeia uva passa.


Situação: Quarta-feira, nem o início nem o fim da semana. Você acorda morrendo de dor na perna esquerda e mal consegue andar da cama até o banheiro para tomar banho, mas mesmo assim você vai, porque precisa trabalhar e ganhar dinheiro. Tudo bem, sua cara está aceitável e você lembrou de tirar a maquiagem ontem. Quando vai entrar no banho, percebe que a água está tão quente que poderia arrancar sua pele em poucos minutos. O junker fica do lado de fora de casa, o que quer dizer que você terá que passar frio para diminuir o gás pra não passar calor no banho. Então você vê que seu irmão mais novo, que divide o apartamento com você, aumentou o gás para "G", o que significa "Chama Grande", o que quer dizer que ele estava tentando algum tipo de suicídio bizarro com toda aquela água quente. Você diminui a chama e entra no banho. Você sai do banho e, quando está se secando, percebe uma mancha vermelha muito desagradável na toalha. Você está menstruada. Tudo bem, talvez ainda não seja o fim do mundo. Você volta para o quarto, coloca uma calça jean preta, uma camisa branca e um sapato de salto médio - esquecendo totalmente da dor na perna, já que você pega ônibus e não precisa caminhar muito. Você checa se seu yorkshire chamado Fluffy tem comida e água. Ele não tem, mas onde está a ração, mesmo? Você perde cinco minutos até achar o saco de ração debaixo da cama do seu irmão. Coloca comida e enche o potinho de água. Certo, agora você está pronta para o café da manhã, aquela hora que você considera tão sagrada. Você liga no noticiário e, pela vigésima vez em dois dias, estão falando sobre as vítimas de um desabamento, mas mesmo assim você não muda e canal, porque é como se desse azar. Você abre o armário de cima da pia e lá está, sorrindo pra você, sua preciosa granola. O pote está cheio, bom. Leite, chocolate em pó, colher, potinho, granola, tudo em cima da mesa. Você senta. Para poder comer a granola, você precisa pegar, colherada por colherada, de dentro do pote, pra ver se não vai cair nenhuma uva passa no seu potinho. Em geral, em dias normais, você nunca pega uva passa. Mas, convenhamos, não são nem oito horas e seu dia já não está nada bom. Você pega a primeira colher e nela vem três uvas passa. Na segunda, duas. Na terceira, mais três. Você surta, mas em silêncio para não assustar Fluffy. Na quarta colherada, você vê mais quatro uvas passa. Provavelmente você pegou todas as uvas passa do pote num dia só. Você tirou todas as uvas passa e agora coloca o chocolate em pó, que forma bolinhas e não dissolve por inteiro e o leite - que você odeia puro - fica com gosto ruim. Mesmo assim, você precisa se alimentar pra não desmaiar durante a manhã. Você levanta e coloca o potinho vazio na pia e sai de casa, esquecendo de pôr água no potinho, para que as formigas não invadam, e de jogar no lixo as uvas passa que ficaram em cima da mesa. Você está andando pela rua, louca da vida porque pegou todas as uvas passa e sente que, por causa disso, o dia será um inferno. Dor na perna ok, água fervendo ok, menstruação ok, Fluffy sem comida ok, agora, UVA PASSA? Ah, não. Você está há quatro metros da parada quando vê seu ônibus passando. Você grita para que o motorista pare, mas ele só olha pra você e continua, te deixando pra trás, menstruada, de salto, atrasada e com dor na perna. Você não tem outra alternativa se não andar até o trabalho, já que você vai chegar lá a pé antes que o próximo ônibus chegue naquela parada. Você chega no estúdio - você é publicitária - com cinco minutos de atraso, mas seus chefes, por sorte, não estão lá para te xingar. Você larga a bolsa no cabideiro e ele cai, porque ninguém te avisou que ele estava com um pé faltando.  Você arruma a bagunça e vai se sentar em frente ao seu computador. Assim que senta, o telefone toca. "Alô? Oi Seu Schuck, arte nova? Rótulo? Refrigerante? Tá bom, mas não é pro meu e-mail que o Sr. tem que mandar. Ah, vai mandar mesmo assim? Tá bom então. Tá, Seu Schuck, eu passo o recado. Não, não vai ficar pronto amanhã. Ok, ok, de nada, tchau". O cliente que você mais odeia te ligou pra avisar que vai mandar um e-mail pedindo um orçamento para você, sem perguntar se você é designer ou vendedora. Você tenta abrir o Corel e ele tranca a sua internet. Você tenta abrir o Illustrator, mas o Corel não deixa, você tenta entrar no msn e esquece a senha. Você manda tudo pra puta que pariu e vai pegar um copo de café. Você tropeça num cabo no chão, tenta se apoiar na mesa do café e ela cai e vira tudo em cima de você. Suas colegas não riem porque gostam muito de você, mas por dentro elas estão que não se aguentam. Você levanta, arruma a camisa branca manchada de café e vai até a sala da chefe do seu setor. "Preciso tirar o dia de folga, obrigada, tchau". Você nem espera que ela diga alguma coisa, volta pra casa e passa o dia deitada na cama comendo sorvete de morango - que você odeia, porque o seu preferido, o de chocolate, seu irmão devorou num dia - e vendo tv. Um milagre que a tv não tenha queimado. Malditas uvas passa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário