Friday night
Saturday night
What about a Wednesday night?
Andando pela rua na manhã seguinte a aula de Estética e História da Arte, ainda podia ouvir a voz da professora tagarelando sobre o famoso pintor local. Na descida, quase no cruzamento da rua A com a B, onde há uma praça em cada esquina, senti uma gota de água caindo no meu cabelo. Olhei pra cima. Nuvens. Droga, chuva! Mas já estava no meio do caminho, então iria até o fim.
Dois passos adiante, outra gota, mas no chão. Oh meu Deus, aquilo era vermelho? Me abaixei para ver de perto. Sim, era chuva vermelha! Toquei meu cabelo onde a primeira gota havia caído e olhei minha mão. Verde? Mas que diabos é tudo isso? Outras duas gotas caíram no chão, ambas laranja. Levantei, assustada, procurando por alguém que também estivesse vendo aquela bizarrice. Claro, eu estava sozinha. Que conveniente. Alguma coisa escorreu pelo meu braço descoberto. E era azul. A chuva, não o meu braço... Tudo bem, é o apocalipse, mas eu não quero morrer agora! Olhei para o céu. Maldito pensamento, uma tempestade de chuva colorida despencou sobre a encruzilhada - e sobre meus olhos, quase de deixando cega. Será que o Céu contratou o Restart para comemorar os 3.000 anos de Paraíso? Só essa idéia já me dava arrepios!
- NÃÃÃO! - gritei com todas as minhas forças, quando limpei os olhos e encontrei Pê Lanza e Iberê Camargo pintando as nuvens de todas as cores.
- Camila. CAMILA, para de gritar! - alguém falou no meu ouvido. Levantei a cabeça e todos olharam pra mim.
O que, a aula de história da arte ainda não terminou? Oh deus...
sábado, 28 de agosto de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Asilo
Meu primeiro conto, que eu estava há muito pra postar aqui, mas sempre deixava pra depois. Ele tem muitas falhas, mas por enquanto foi o melhor que eu fiz, rs.
Estava tudo perfeito, eu e Lavina tínhamos acabado de nos casar. Estávamos com 20 anos. Nos conhecemos ainda no colégio, 6ª série. Desde que eu entrei naquela sala de aula pela primeira vez, aquela loirinha de olhos verdes conseguiu fazer toda a minha atenção de concentrar em si. Começamos a namorar pouco tempo depois e conseguimos o que poucas pessoas conseguem: manter um relacionamento sem brigas e em constante evolução, superando os desgastes do tempo.
Há alguns dias, depois do casamento - não tivemos lua-de-mel, por falta de dinheiro, mas não era como se precisássemos de uma ocasião especial para sairmos da rotina - decidimos nos mudar para San Diego. Los Angeles é uma cidade boa, mas nós estávamos nos sentindo invadidos pelas pessoas ao redor. Tristeza e stress são contagiosos, sabia? Compramos uma casa antiga, no alto de uma das centenas de montanhas da cidade.
Ela, a casa, tinha um preço imperdível - até bastante suspeito, mas no calor do momento, ninguém pensou nisso - e era bem grande. A corretora nos explicou, estrategicamente segundos depois da compra, que alí costumava funcionar um asilo, que foi fechado quando o filho da dona da casa morreu, lutando na Segunda Guerra, e a mulher entrou em depressão e se matou semanas depois.
- Tudo bem, eu não tenho medo de lendas urbanas! - Lavina sempre foi assim, nunca tinha medo de nada, enfrentava qualquer coisa. Eu amava isso nela, porque era exatamente o oposto de mim. Quando ouvi a história, fiquei com um pé atrás, achei melhor desistir, pegar o dinheiro de volta. Mas Lavina queria tanto, que eu não pude fazer nada.
Entramos pela primeira vez na casa. Ela tinha dois andares, mais um sótão e um porão. No primeiro andar ficava uma cozinha industrial, uma despensa, uma sala de estar grande - provavelmente onde os idosos ficavam com seus familiares, em dia de visitas -, uma sala de jantar, um escritório e quatro banheiros, incluindo um lavabo. No andar de cima havia cinco quartos e duas suítes. No fim do longo corredor, estava a escada para o sótão. Sem porta, apenas degraus seguidos de escuridão. Lá caberia um quarto. Ou um escritório, ou uma biblioteca, qualquer coisa se não um quarto, já que pretendíamos ter um filho e os quartos deveriam estar no mesmo piso. Deixamos nossas coisas na suíte principal, na parte da frente da casa. O quarto da dona do asilo. O resto das caixas e móveis estavam espalhados pela casa e assim ficariam por muitas semanas.
- Imagina a quantidade de coisas que a gente pode fazer aqui! - Lavina pulou em cima de mim, se pendurando no meu pescoço, no meio do hall de entrada. - Até aquela coisa de ladrão e mocinha inocente, que não tinha graça nenhuma naquele micro apartamento! - ela franziu o cenho, com certeza pensando nas nossas tentativas frustradas de realizar as fantasias dela.
- A gente pensa nisso de noite, L. - eu ri, segurando a garota, que já começava a machucar meu pescoço, pela cintura. Ela nunca conseguia parar quieta.
- Certo! Eu vou dar um jeito nas coisas. Você vai até aquele colégio! - ela segurou meu rosto com as duas mãos - quentes, sempre quentes - e me deu um beijo rápido, mesmo assim apaixonado, e logo que eu a soltei de novo, passou por mim, indo até a sala - o cômodo mais bagunçado.
Ah, Lavina...
Eu tinha que ir no tal colégio que me contratou como professor de literatura do primeiro ano do colegial. Eu mal tinha terminado a faculdade, era pura sorte. Na verdade, era muita sorte, porque só com o dinheiro que eu receberia, eu poderia terminar de pagar a casa.
Deixei Lavina e fui até o San Diego High School. O problema daquela cidade é que tudo fica muito longe. A cada lugar que você vai, parece uma viagem. Demorei meia hora para chegar lá. O colégio parecia uma faculdade, na verdade. É, talvez fosse pelo fato de fazer parte da San Diego University, que ficava logo ao lado. Logo na entrada do colégio, um balcão largo separava os visitantes do resto do prédio. Uma ruiva de bochechas grandes chamada Sally me atendeu.
- Thomas Springsummer, certo? - ela estava mascando chiclete e parecia entediada. Como aquelas secretárias de filmes enlatados. E, assim como elas, Sally também usava uma franja curta demais e um coque no alto da cabeça.
- Isso. - eu me apoiei no balcão, tentando ver o que ela estava fazendo. Curioso por natureza, um dia isso ainda vai me matar. Sally levantou os olhos, séria, mascando aquele chiclete.
- O diretor Houting o espera na sala dele. - ela anunciou, voltando a fazer o que quer que estivesse fazendo antes, já que eu não consegui ver o que era. Fiquei olhando pra ela, com cara de bobo, eu acho, porque, quando ela levantou a cabeça, quase riu. - Abre essa porta, segue reto até o fim do corredor, a porta à esquerda, escrito "diretor".
- "Diretor"... Faz sentido. - falei mais pra mim do que pra ela. Ela tava me zoando? Segui o caminho que ela explicou. Os corredores de paredes azuis cobertas por centenas de armários de metal estavam vazios. Obviamente os alunos estavam nas salas. Às vezes eu mesmo me espanto com a minha capacidade de raciocínio.
A porta no fim do corredor. Diretor. Bati três vezes e imediatamente escutei a resposta. "Entre", ele disse, numa voz grossa. Devia ter por volta duns sessenta anos. Abri a porta e, de fato, me deparei com um senhor de cabelos brancos e aparência cansada. Ele já começou me explicando que eles tinham sérios problemas com os professores em geral, que normalmente eles não duravam mais de dois ou três anos lecionando por lá. Não preciso dizer que comecei a ficar incomodado, afinal, eu precisava de pelo menos dez anos num emprego estável e que me desse a quantia que eles estavam oferecendo.
- Eu vou fazer isso mudar, Sr. Houting. - eu não sabia o que dizer e acabei falando nada. Ele só suspirou, assentindo com a cabeça.
- Você começa amanhã. O primeiro período é às dez horas da manhã. Os detalhes de salário e o resto do horário você pode pegar com a Sally. - ele se levantou e me ofereceu a mão. Estava tudo certo. Me despedi e saí da sala. Nesse instante, meu telefone tocou. Era Lavina.
- Tom! Você não vai acreditar no que eu achei aqui no sótão! Eu posso escrever uma trilogia com isso tudo aqui! - ela estava muito animada e eu podia ouvir um barulho frenético de passos ao fundo. Não pude deixar de rir, a voz dela era a voz de uma criança que acabara de ganhar o sorvete que tanto queria. - Volta logo! - ela nem me deu tempo de falar alguma coisa, além de rir, e desligou o telefone. À essa altura, eu já estava fora do prédio, com os papéis que Sally me entregou na mão e indo para o meu carro. Mais meia hora. Quando cheguei em casa, Lavina me esperava na porta, com papéis e cadernos antigos nas mãos.
- Que é tudo isso? - perguntei, quando ela me entregou um dos cadernos. Era um diário e parecia ter uns setenta anos.
- É toda a história do asilo! Todos os dados, horários, datas, nomes, visitas! Tudo, Tom! Era o que eu precisava, quero minha sala e quero no sótão! - ela abraçou todos aqueles papéis mofados, com força, correndo de volta pra dentro da casa.
Asylo Melbourne...
Há tempos que Lavina procurava uma boa história para começar o seu livro. Parece que ela finalmente encontrou. Entrei em casa logo atrás dela e, nossa!, incrível o que ela conseguiu fazer naquele lugar em, no máximo, duas horas. Na sala não havia mais caixas e todos os móveis estavam no lugar e a cozinha parecia que já estava pronta antes mesmo de chagarmos, exceto por um ou outro eletrodoméstico em cima do balcão central. É, ela percebeu que eu fiquei espantado.
- Você ainda não entendeu que eu sou demais, T? - ela riu, piscando aqueles olhos verdes pra mim.
- Tem razão, L,eu nunca vou aprender a conviver com tamanha sobrenaturalidade! Agora, onde você achou tudo isso, mesmo?
- No sótão! Credo, você não presta atenção em casa. - Lavina começou a me puxar escada a cima para o segundo andar e depois para o sótão.
- Nos...! - "nossa!" parece que, quando limparam a casa, depois da tragédia, esqueceram que tinha um sótão por lá. Moveis antigos, peças de decoração, camas de ferro, colchões puídos. E caixas, muitas caixas cheias de papéis - iguais aos que Lavina segurava.
- Ah, olha só! Fichas e diários de internos! - ela anunciou, antes mesmo de eu poder abrir a primeira caixa. Me aproximei dela, sentando ao seu lado, enquanto ela começava a ler um dos diários. - "Lorena Easter, oitenta e dois anos, viúva, californiana. Foi trazida pelos filhos James e Julian Easter." - ela pulou algumas folhas - !Doze de setembro de 1939. Lorena não se comportou bem na sua primeira noite no asilo, tivemos que aplicar sedativo, além de amarrar seus braços e pernas na cama.! - Lavina ficou quieta e me olhou ao mesmo tempo que eu a encarei. O silêncio eloqüente. Eu devia ter dito pra parar, mas nós dois queríamos saber o resto. Ela voltou ao diário.
- "Cinco de outubro de 1939. Lorena continua causando transtornos. Ontem à noite, presa na cama, começou a gritar que alguém naquela quarto a estava tentando matar. Os sedativos não funcionaram e eu tive que, pessoalmente, costurar sua boca." - Lavina fechou o diário automaticamente, depois de ler a última frase daquela data.
- Lavina... - segurei a mão dela, esperando que ela colocasse aquilo de volta no lugar e desistisse daquela história. Mas ela fez outra coisa.
- Thomas, isso é perfeito! - espera... O que? Aquela mulher, Melbourne, torturava os internos e Lavina ainda queria ir em frente? E aquela Lorena, que via coisas no quarto dela? Aquilo era loucura!
- L, você não pode estar falando sério, olha isso tudo! - peguei outro daqueles diários de capa de couro que estavam empilhados dentro da caixa à nossa frente. - "Oswald Kendall, noventa anos, trazido de Louisiana pela esposa, Mariane Kendall, de vinte e dois anos." - passei algumas páginas, chegando nos registros. - "Três de janeiro de 1930. Pobre Oswald, sempre tão obediente e calmo, hoje à tarde entrou na cozinha e tentou arrancar os olhos com um garfo. Catarina, uma das cozinheiras, diz que tentou impedir, mas ele a ameaçou com o instrumento e ea recuou. Acho que, em breve, teremos que da adeus ao velho Oswald." - à essa altura, eu estava completamente em choque e Lavina continuava frenética! Passei para a última data registrada, não acreditando que Melbourne tivesse feito o que eu estava pensandoque ela fez. - "Quatro de julho de 1930. Que data para se despedir de alguém! Durante a madrugada de hoje, Oswald sofreu um ataque cardíaco e faleceu. Ele demorou a morrer, por isso alguns infermeiros diminuiram sua dor, adiantando sua passagem, com bastões de madeira. Ninguém procurou pelo velho." - fechei o diário e joguei na caixa. - Você não pode fazer isso! Olha com o que você tá mexendo, Lavina! - se eu estava apavorado? É óbvio.
- É a minha chance, Tom! A história é fantástica!
- A gente tem que ir embora daqui. Eu sabia que não podia ser perfeito. - eu levantei, tentando puxá-la junto, mas ela soltou minha mão.
- Por favor, Tom... Me deixei fazer isso e nós vamos embora. - ela insistiu, levantando e apoiando as duas mãos no meu peito. Droga, não dá pra lutar contra esses olhos.
- Certo... - eu suspirei, derrotado. Segurei Lavina pela cintura e puxei seu corpo para perto do meu, dando um beijo demorado em seus lábios. Eu estava com medo do que pudesse acontecer.
Acabamos por transformar o sótão num escritório. Lavina organizou os arquivos das caixas nos armários antigos que já estavam lá. Basicamente, o que fizemos foi apenas uma pesada limpeza. Lavina passava a maior parte do tempo lá dentro, em meio aos terríveis relatos de Melbourne, enquanto eu dava aula àqueles alunos que se acham mais inteligentes do que os mestres. Descobri por que os professores não duravam lá: os alunos faziam de tudo para humilhá-los e fazê-los se demitirem ou serem demitidos, tudo mesmo. Mas, quando eles descobriram que eu era o novo dono da casa do asilo, começaram a tomar interesse pelo que eu dizia em aula.
O fim de semana chegou, hora de dar um jeito na casa. Quer dizer, esse era o meu plano... Era.
- Tom, você tem que ver isso! - Lavina vaio até mim correndo, assim que eu abri a porta de casa, carregado de sacolas de compras. - Eu achei vídeos! Um dos armários tinha um tipo de fundo falso ou sei lá...
- L, você não entende o que isso quer dizer? - fomos até a cozinha, onde deixei as sacolas, no balcão. Ela ficou me encarando, com uma fita de vídeo na mão, esperando a resposta. - Lavina! Se isso tava escondido num fundo falso, obviamente tem alguma coisa errada gravada aí! - expliquei, mas mesmo assim ela não entendeu aonde eu queria chegar. - Presta atenção. Se Melbourne não fazia questão de esconder os absurdos escritos naqueles diários, imagina o que deve estar gravado aí! - sabe, às vezes eu realmente levava em conta o fato de ela ser loira, como uma coisa prejudicial à saúde dela.
- Então nós temos que descobrir! - ela sorriu e me deus as costas, sumindo pela porta.
O que mais eu podia fazer, além de ir atrás dela? Cheguei na sala e ela já estava colocando a fita no vídeo.
- Preparado? - ela se virou pra mim e apertou play.
- E eu tenho opção? - falei, rindo e dando de ombros. Me joguei no sofá marrom e Lavina sentou ao meu lado, ansiosa. Não sabia o que estava dando nela.
Uma imagem apareceu na tela. A filmagem era precária, em preto e branco e a pouca luminosidade do lugar piorava a gravação. Era um quarto de internos, coletivo e sem janelas. Havia muitas camas, apesar de pouco espaço, e todas estavam ocupadas. Não consegui contar quantas eram. Lavina se aproximou mais de mim, encostando a cabeça no meu ombro. Seu entusiasmo estava dando lugar ao medo. Palavras são uma coisa, imagens são completamente diferentes. No vídeo, que não tinha audio, um movimento estranho... A câmera de aproximou da cena, tudo ficou mais nítido. Era um... Bastão de madeira? Na cama, uma pessoa estava amarrada, sangrando e sem um olho.
- Oh meu deus! - Lavian gritou, fechando os olhos e virando o rosto no momento em que o homem do bastão deu uma batida mais forte no velho, o que teria feito um barulho repugnante, se a filmagem tivesse audio. Sorte nossa.
A câmera, depois de registrar a morte do velho, que concluí ser Oswald Kendall, moveu-se pelo resto do quarto, mostrando os rostos desfigurados dos outros internos lá trancafiados. E então desligou.
Silêncio e o som dos chuviscos da televisão invadiram a sala.
Agora ela ia desistir.
- Tá satisfeita, agora? - passei meu braço pelos ombros dela e ela levantou a cabeça.
- Será que também tem um vídeo dela costurando a boca daquela mulher?
- Lavina! - se eu ganhasse um dólar toda vez que falasse o nome dela, desde que chegamos em San Diego, não ia demorar muito pra ficar rico.
- Que, mais dizer que isso não é demais? - ela levantou e parou na minha frente, segurando as minhas mãos, entrelaçando seus dedos nos meus. - Tom... Eu sei que você não tá gostando nada disso, então, se não quiser se envolver mais... Deixa comigo, tá? Você sabe como eu sou.
- Agora que eu já cheguei até aqui... - o que mais eu podia fazer, isolar a minha mulher no sótão porque ela está perdendo o juízo? Não, né. E era bem verdade, eu sabia que, uma vez que ela colocava uma idéia cna cabela, por mais louca que fosse, ela não tirava mais até fazer o que pretendia.
Ela sorriu e me abraçou, dizendo que ia subir pra ver se achava o vídeo de Lorena e que era melhor eu fazer o almoço antes que ficasse tarde. Espera, "fazer o almoço antes que fique tarde"? Ah, credo!
Passamos um mês inteiro assim, procurando e assistindo vídeos, lendo diários. Além de Oswald e Lorena, outros três casos nos chamaram a atenção: Katrina Owens, de oitenta e quatro anos, era cega, segundo sua ficha, mas no diário consta que os seus olhos foram furados aqui mesmo; Deborah Robinson, setenta e sete anos, era provavelmente a mais sã de todos, mas não dormia à noite porque, assim como Lorena, ficava berrando que alguém iria matá-la. Ela não chegou a ser torturada, parece que vivia de sedativos num quarto isolado; e Livia Johnson, que era uma das enfermeiras, tinha quarenta e nove anos e foi internada porque, segundo Melbourne, ficou "louca". Ficava no "quarto sem janelas" e não convivia com os outros internos.
Segunda-feira, fiquei o dia inteiro fora por causa de um imprevisto no colégio. Tive que dar todos os períodos de português, além dos meus, por que o professor da matéria simplesmente se recusou a voltar lá. Quando cheguem em casa à noite, encontrei Lavina no sótão - claro. Ela estava parada, com os cotovelos apoiados na mesa e o queixo nas mãos, vidrada na tela do computador.
- Eles a mataram.
- Que?!
- Eles! Aquels três! Mataram Melbourne, forjaram o suicídio e depois se mataram!
Silêncio.
- Como você descobriu isso?
Ela me encarou.
- Eu vi.
- O... Você O QUÊ?
Ela se arrumou na cadeira, virando o corpo inteiro pra mim e começou a gesticular e falar, ansiosa.
- Eu estava aqui em cima vendo umas fotos, sabe, pra por no livro, quando eu ouvi um barulho estranho. A casa é grande, poderia ter vindo de qualquer lugar, mas me pareceu distante, né, então eu fui direto pro primeiro andar. Eu sei que, se fosse você, apesar de ser curioso desse jeito aí, teria ignorado de medo... - ela parou, rindo. Não podia perder a piada, né, L? Arqueei uma sobrancelha e ela acabou continuando. - Certo, mas eu chequei todos os cômodos e depois o jardim. E nada! O barulho continuou e eu já estava ficando irritada, quando lembrei que nós temos um porão. Lá fui eu pro porão! Sério, Tom, aquele lugar dá arrepios! Liguei a luz, juro, tinha luz!, mas não adiantou quase nada, e sabe o que tinha lá? O quarto coletivo! Onde o Oswlad morreu!
Pausa.
"Então eu ouvi o barulho, mais uma vez, muito forte. Eu estava no lugar certo, mas as batidas pareciam vir de lugar nenhum, simplesmente apareciam no ar. Comecei a andar entre as camas, então, pra achar o "foco". Devo ter parado na penúltima cama à esquerda, antes da parede do porão. Fiquei olhando o colchão azul e branco listrado, manchado e puído, por algum tempo... Então eu toquei o ferro da cabeceira. Tom, eu não sei o que aconteceu, mas eu fui parar no momento do assassinato da Melbourne. Foi... Terrível. Ao todo eram doze internos, no porão, e eles todos, do nada, se revoltaram e prenderam os enfermeiros - lá embaixo só descia homens. Acho que planejavam isso há tempos. Deborah, eu vi que era ela pela descrição na ficha, ruiva, com cara de anjo, furou os olhos e todo o rosto deles com uma caneta e depois costurou suas bocas com uma agulha enferrujada. Igual àquelas que encontramos no sótão. Imagino que não tivessem feito isso antes justamente para atrair Melbourne com os gritos. Então fizeram silêncio. Katrina, a cega, estava com o ouvido colado na porta, junto com Livia e, quando elas ouviram barulho de passos, voltaram às camas. PÁ! Melbourne abriu a porta bruscamente, bem atrás de mim. Virei para vê-la. Estava furiosa, bufando! Seus olhos estavam arregalados e vermelhos e ela mostrava, num sorriso assassino, dentes amarelos e sujos. Ela era enorme, quase um homem!
- O QUE VOCÊS PENSAM QUE ESTÃO FAZENDO? EU VOU MATAR CADA UM DE VOCÊS E SERVIR DE COMIDA PARA O RESTO DOS VELHOS! - ela gritou, arrancando os cabelos, cuspindo enquanto falava. Então um homem pulou em cima dela, fazendo Melbourne desmoronar no chão. Katrina - não me pergunte como, parecia que ela via tudo que estava acontecendo -, Livia e Deborah levantaram de suas camas e amarraram a mulher com lençóis. Não pude ver o rosto do homem! Estava tudo muito escuro. Eles puxaram Melbourne pra cima de uma das camas. Ela gritava, insana, feito uma porca no abate. Dizia que eles estavam perdidos, que não sobraria ninguém pra contar história. Não adiantou. O homem pegou o travesseiro e apertou contra o rosto dela, enquanto ela esperneava. Não fosse o bastante, Deborah apareceu com o bastão que matou Oswald e começou a bater no travesseiro. Os gritos da mulher eram abafados, mas mesmo assim apavorantes. Estava presa, não podia fazer mais nada para se livrar do que estava por vir e logo seu corpo relaxou, sem vida."
Parou e respirou fundo.
- Depois eu soltei o ferro e voltei.
- L, olha com que tipo de coisa nós estamos lidando! Você viu coisas, Lavina. Que dimensão isso ainda pode tomar?
- Suponho que... AAH! - ela se assustou com o barulho de um prato quebrando. s pratos ficam dentro de um armário fechado e nenhuma janela está aberta.
Eu queria muito fazer muitas perguntas pra ela, sobre o que ela tinha visto mais, mas me levantei para correr até a cozinha. Lavina veio logo atrás de mim.
- O que é, o que é? - ela ficou perguntando, enquanto descíamos as escadas.
- L, eu ainda não cheguei lá, como é que eu vou saber? - revirei os olhos, atravessando a sala. Depois, cozinha. Congelei no vão da porta, Lavina não viu e bateu com tudo nas minhas costas.
- Thomas! - ela reclamou, massageando o nariz com a mão. Na cozinha, a mulher ensangüentada e com a boca costurada notou nossa presença. Oh meu deus. Ela estreitou os olhos para nós e parou de andar. Droga, ela tá vindo pra cá!
- LAVINA, CORRE! - não esperei ela chegar perto, muito menos Lavina reagir, me virei e saí correndo, puxando a loira pelo braço para o segundo andar. Sem saber pra onde ir, acabei nos trancando dentro do nosso quarto. Estava tudo escuro, mal chegava alguma luz pelas janelas de vidro. Eu estava nervoso, apreensivo e, principalmente, morrendo de medo de acender a luz. Apertei a mão de Lavina. Podia ouvir a respiração ofegante dela.
- Acende, Tom.
- Não.
O interruptor estava não lado dela. Meus olhos já estavam se acostumando com a pouca luminosidade quando ela apertou o maldito botão e fez a luz correr pelo quarto. Na nossa cara, Melbourne.
O mesmo olhar que Lavina descreveu minutos antes.
Melbourne pronunciou alguma ameaça, mas só saíram grunhidos aparentemente sem significado, e então avançou na nossa direção. Mais um segundo e não teria sobrado nem Thomas nem Lavina pra contar história, abria porta, puxei Lavina e bati. Lorena, a mulher da cozinha, que estava passando pela sala no andar de baixo, ouviu a batida e virou o rosto para nós.
- Tom, o que eu fiz? O que eu fiz? - Lavina chorava, descontrolada, enquanto eu a arrastava pra fora da casa. Já era noite há tempos, bem se via pelo céu negro e estrelado. A escuridão que as árvores produziam ao redor também não nos ajudava. A primeira coisa que veio na minha cabeça, e a mais óbvia: dirigir até a cidade.
Abri a porta do carro para Lavina e corri para o banco lado do motorista.
- Estamos mortos, L. - aquilo jorrou da minha boca antes que eu pudesse pensar na conseqüência. Tarde demais, Lavina entrou completamente em desespero, tremia sem parar, chorava muito e sua pele estava muito fria. Não conseguia falar e soluçava ao respirar. Maldita hora para não achar a chave!
-LAVINA, ME AJUDA, P...! - gritei, fazendo o pânico da garota aumentar ainda mais, mesmo que ela tivesse tentando se mexer para procurar a chave do carro.
- Inferno! - ah, achei as malditas! Coloquei a chave na ignição, quando olhei pra frente de novo, cinco pessoas vinham em nossa direção: Lorena, Deborah. Livia, Katrina e o velho não identificado. O último tinha o rosto completamente desconfigurado, queimado, aos pedaços, sangrando.
- FUNCIONA, MERDA! - bati com as mãos no volante. Não, aquilo NÃO podia estar acontecendo. Não comigo! Isso não é real, não existe, NÃO!
- TOM! - Lavina deu um grito agudo. Virei pro lado, assustado, e vi Melbourne na janela, abrindo a porta do carro.
- NÃO! - entrei em choque, Melbourne arrancou Lavina de dentro do carro, puxando-a pelos cabelos. Tentei puxar Lavina de volta, mas três pares de mãos me seguraram. Eles estavam atrás de mim! Não importa, Lavina estava sendo levada embora! - LAVINAA! - eu não consegui me soltar a tempo, Melbourne arrastou Lavina pela grama até a entrada do porão, onde se trancou com ela. Os três mortos me puxaram pra fora do carro e os outros dois de aproximaram. Eu não conseguia me desvencilhar, eles eram fortes demais. Fiquei preso ao chão, com cinco espíritos me segurando, por meia hora, ouvindo os gritos de Lavina vindos do porão. Chamando por mim.
Morrendo ou não, minha vida acabaria naquela noite.
Os gritos cessaram. À essa altura, eu já nem lutava mais. Os espíritos desapareceram e eu fiquei lá, jogando no chão, com os olhos cheios de lágrimas que se recusavam a cair, encarando o amanhecer no céu. Não tinha mais forças para me levantar, não tinha coragem. Nem sabia se eu ainda estava vivo.
Mas eu ficaria lá pra sempre, até que alguém pagasse pela vida dela. Nem que eu tivesse que matar para conseguir vingança.
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contos
sábado, 7 de agosto de 2010
Dexter - A Mão Esquerda de Deus
Boa noite, everybody! Como as aulas de Técnicas de Reportagem e Narrativa já mostraram, nessa uma horinha e meia que tivemos juntas essa semana, vou ter muito trabalho envolvendo, entre outras técnicas de escrita, resenhas. Por isso e por acompanhar cada post do blog Lendo & Comendo eu resolvi começar a tirar meus livros da estante e comentar sobre eles, bem aqui. Eu queria que a minha primeira resenha fosse sobre Da Matéria dos Sonhos, da Rosana Rios, que é um livro que surgiu pra mim do nada e que me encantou logo nas primeiras páginas. Mas como a vida não é colorida, eu estou com pouco tempo pra ler e as aulas estão correndo, vou começar com o primeiro livro da trilogia Dexter, que deu origem à série de TV. (As resenhas serão assinadas como "Caio's pov" por motivos pessoais.)
Dexter Morgan é membro da perícia do Miami Police Department, especialista em borrifos de sangue. Mora sozinho, é gentil, charmoso, tem uma namorada loira e adorável, dois pequenos enteados e uma meio-irmã que faz parte da divisão de Narcóticos da Polícia de Miami. Nada podia despertar menos a curiosidade alheia. E é esse mesmo o plano. Na verdade, Dexter é um serial killer nada convencional que mata apenas outros serial killers.
Deborah (chamada "Debra" pela série de TV), irmã mais nova de Dexter, está infiltrada entre as prostitutas de Miami para resolver um caso de tráfico de drogas quando uma série de assassinatos - todos com as vítimas aparecendo sem sangue, cortadas em pedaços e embrulhadas em vários pequenos pacotes, como presentes - começa a acontecer. Com medo de ser a próxima vítima - e querendo livrar-se logo daquele trabalho que não lhe agradava em nada, especialmente pelas roupas que era obrigada a usar -, Deborah pede ajuda ao irmão, sabendo que ele tem certa facilidade em desvendar paradeiros de assassinos em série. Dexter - e seu "Passageiro das Trevas" - fica fascinado com a técnica do serial killer misterioso e logo cogita usar o mesmo método, ao mesmo tempo, se sempre incomodado com tamanha semelhança com seus próprios assassinatos.
Dexter acaba envolvido no caso, mesmo não sendo detetive, e tem todo o apoio da detetive LaGuerta e a discórdia do Sargento Doakes, um homem do qual o passado todos desconhecem e que tem uma implicância óbvia com Dexter. Mesmo com a mente de Dexter trabalhando como nunca, é como se o assassino fosse um fantasma. Até que Dexter encontra na sua geladeira uma mensagem do serial killer. Com isso, ele está a poucos passos de descobrir o que está acontecendo.
Entre uma reunião e outra da polícia, Dexter faz mais uma vítima mas, com medo de que o pegassem, deixa o trabalho inacabado e logo a polícia acha o corpo, mas não suspeita de nada. Depois desse evento, mais uma vítima do assassino misterioso é encontrada. Dessa vez, num estádio de Róquei. Analisando as câmeras de segurança, a imagem do próprio Dexter aparece em um dos vídeos. Dexter sabia que não era ele, é claro e, mesmo que estivesse tendo algum tipo de lapso de memória, ele se lembrava claramente da perseguição que teve com o outro serial killer, na madrugada de Miami.
É descoberto, então, que o serial killer é Brian, o irmão mais velho de Dexter. Brian seqüestra Deborah para que Dexter o siga e os dois, juntos, matem a mulher. Quando se encontram, Brian conta sobre a infância dos dois e como surgiu a necessidade de matar que os dois têm. Influenciado pelas palavras do irmão, Dexter fica cego diante de Deborah, que está amarrada em uma mesa diante deles. No tempo em que fica sem saber o que fazer, Dexter analisa seus conceitos sobre quem deve morrer e quem deve viver. No último instante, a detetive LaGuerta os encontra. Uma pequena luta é travada entre Brian e LaGuerta, o que acabada em morte para ambos os lados.
Deborah - que não denuncia o meio-irmão, apesar de agora saber sobre seu segredo - é transferida para a Homicídios - como sempre quis - e Dexter fica feliz pela morte de LaGuerta, que vivia no seu pé, assediando-o constantemente.
Dexter - A Mão Esquerda de Deus (272 páginas, brochura, 16 x 23 cm 1ª edição: 2008) é um grande sucesso de Jeff Lindsay e foi publicado no Brasil pela editora Planeta.
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terça-feira, 3 de agosto de 2010
Depois do Vestibular #2
Eu sei, eu sei, sumi. A N deve estar louca comigo. Mas eu estava muito louca com tudo que estava acontecendo. Muita coisa, mas isso não vem ao caso agora, porque ontem foi o meu primeiro dia de aula na faculdade!
# Primeiro dia de aula
Cheguei lá muito apavorada, por mil alguns motivos. Vamos contar?
1 - Combinei com a Ju de chegarmos juntas na PUC. Daí no fim da tarde ela me avisa que vai pegar o T4 e que não vai comigo porque... eu não entendi bem por que. Sendo assim, cheguei sozinha.
2 - Liguei pra ela quando entrei no campus, mas ela disse "OMG, estou atrasada e já estou no meu prédio". Ou seja? Eu ficaria sozinha lá dentro.
3 - Não queiram saber como os veteranos do jornalismo passam ares TÃO mesquinhos.
Mas, chegando no prédio da FAMECOS, dei de cara com o Gama. Ele está um semestre na minha frente, portanto, o veterano menos assustador de toda a faculdade. Ele me ajudou a descobrir qual era a minha sala, porque a espertinha aqui conseguiu perder a grade de horários um dia antes. Cheguei mais cedo do que precisava - o que quer dizer que a Ju também não estava atrasada - e tive que ficar esperando junto com um monte de veteranos que tinham rodado naquela cadeira.
Ok, entramos na sala. Preciso dizer que foi exatamente igual ao primeiro dia de aula da 1ª série, da 8ª e de todos os anos do ensino médio.
Primeira/Segunda Aula (Técnicas de Reportagem e Formas Narrativas) - O primeiro professor, que eu não lembro o nome, falou mil coisas legais e não deu aula. Normal. Tivemos dois períodos com ele e já temos que ler dois livros que custam quase o olho da cara, juntos.
Intervalo - Fui até o CSPA pra assinar o contrato do FIES. Depois fui socorrer a Ju, que está fazendo Admistração contra a vontade. Ela teve dois períodos de Cálculo com a professora que costumava nos dar aulas de matemática no ensino médio. Fiquei meio triste por ela não ter me deixado falar sobre a minha aula, mas eu entendo, já que ela queria fazer Relações Públicas.
Terceira/Quarta aula (Tecnologias Audiovisuais) - Cheguei atrasada. O bom é que, na faculdade, a gente não precisa pedir licença pra entrar ou sair e ninguém está ligando se você chegou atrasado ou não. Mas o cara que estava na minha sala era o coordenador de jornalismo. #Fail, mas ele também nem ligou. Quando o professor começou, explicou como seriam as aulas e já nos deu um trabalho pra semana que vem. Hora de levar resenhas a sério.
Hoje tem mais. Espero que só melhore, porque o começo foi bem meia-boca. Mito da faculdade, já era.
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